O álbum “Sobrevivendo no Inferno” é sem dúvida um marco não apenas no Rap Nacional, mas na música brasileira. O disco independente vendeu simplesmente 1,5 milhões de cópias levando o Racionais MC’s ao topo da história do Rap Nacional. E essa obra histórica acaba de completar 21 anos.

A importância do álbum é tão grande que a UNICAMP o incluiu entre as obras de leitura obrigatória para o vestibular de 2020 ao lado de Luís de Camões, o que gerou uma certa revolta na parte preconceituosa do país encabeçada pelo MBL, mas que não vem ao caso.

Nesse mês de festa pelos 21 anos de Sobrevivendo no Inferno, foi lançado pela editora Companhia das Letras o livro “Racionais MC’s – Sobrevivendo no Inferno“. E é dele que falaremos nessa resenha.

Sinopse – Racionais MC’s – Sobrevivendo no Inferno:

A principal obra do maior grupo de rap do Brasil agora publicada em livro, contundente como sempre e atual como nunca. Leitura obrigatória do vestibular da Unicamp.
Na virada para os anos 1990, os Racionais MC’s emergiram como um dos mais importantes acontecimentos da cultura brasileira. Incensado pela crítica, o disco Sobrevivendo no Inferno vendeu mais de um milhão e meio de cópias. Agora publicados em livro, precedidos por um texto de apresentação e intermeados por fotos clássicas e inéditas, os raps dos Racionais são a imagem mais bem-acabada de uma sociedade que se tornou humanamente inviável, e uma tentativa radical, esteticamente brilhante, de sobreviver a ela.

“Foi com Sobrevivendo no inferno que a juventude negra e periférica se formou. Por causa deste disco muita gente se graduou em autoestima e não entrou para a faculdade do crime.”Sérgio Vaz

“O relato não frio, histórico e real da mentalidade que massacra e exclui no Brasil.”Criolo

O livro como vocês podem ver na foto acima vem com a capa icônica do álbum: fundo preto, Racionais MC’s escrito em fonte Cloister Black (que devia até mudar o nome, pois se você pesquisar no google “fonte letra racionais” ela será o primeiro resultado) , a cruz dourada e o nome do álbum. As bordas são douradas da mesma forma que algumas bíblias, fazendo uma alusão a esse evangelho sem muitas boas novas que o disco é.

De início temos fotos ótimas de todos os integrantes do grupo e em seguida após o índice uma introdução simplesmente maravilhosa de Acuam Silvério de Oliveira em “O Evangelho Marginal dos Racionais MC’s“. Nesse capítulo ele mostra o que está escondido por trás da estética do álbum, através de contextualização histórica. Mas não apenas isso, ele consegue desconstruir o processo de criação para que entendamos como todas as músicas estão ligadas em uma espécie de pregação messiânica que apesar de carregar esperança, imergi com profundidade em toda dor, verdade, ódio e luta pelo direito de viver.

Mano Brown em “Capítulo 4, versículo 3”. O objetivo maior é construir, em conjunto com uma comunidade periférica, um caminho de sobrevivência para todos os irmãos, bandidos inclusos, por meio da palavra tornada arma. Mais que isso, o rap reconhece que apenas assumindo todas as complexas implicações desse lugar de marginalidade será possível para a periferia construir espaços emancipatórios. (pág. 36)

São 18 páginas de uma ótima e envolvente introdução que te levam a sabe o quê? Uma ejaculação precoce.

Sim, porque o inicio cria tantas expectativas, te dar a impressão que finalmente você vai mergulhar com profundidade na obra que talvez mais mudou vidas na história da música brasileira e ele corta aí. Acaba. Depois temos apenas as letras de todas as músicas que compõem o álbum, coisa que você pode ver em qualquer site de letras da internet. Quando estamos nos aproximando do clímax somos cortados. Há tanto para ser falar sobre o álbum, poderia ter colhido entrevistas com os artistas… enfim, minha frustração já está bem clara aqui.

Vale a pena comprar?

Claro que vale. O fato desse álbum ter se tornado livro, de ser levado ao ensino superior e de o álbum ser objeto de estudo é importantíssimo, pois é uma tomada de espaço onde o Rap sempre foi visto como subgênero.

Só não vá com tantas expectativas como eu fui.