Por meio da música, programa muda a vida de crianças e adolescentes da periferia de Bragança Paulista

Somar educação e cultura tem como resultado uma poderosa ferramenta de inclusão social e esperança de um futuro digno. Um “instrumento” que, no caso do Projeto Lyra Bragança, é literal a crianças e adolescentes oriundos das periferias de Bragança Paulista. Em 2019, o programa, gratuito e fundado pela pianista Káthia Bonna, pelo trompista e maestro Marcus Bonna e pelo mestre em Ordem Unida Luís Custódio, o Babalu, comemora dez anos de concertos musicais, prêmios, apresentações memoráveis e, principalmente, de seu poder transformador.

O Projeto começou tímido, focado em lecionar música para os filhos dos funcionários da MB Cases, empresa de fabricação de bolsas para instrumentos musicais, também fundada por Marcus e Káthia. Depois, expandiu-se para os jovens das ruas ao redor do prédio. Em seguida, para o bairro onde se encontra, o Jardim Morumbi. Hoje, abraça todas as regiões periféricas de Bragança e abriga mais de 200 alunos divididos em três projetos: a Orquestra de Metais Lyra Bragança, a Fanfarra Alegretti (Escola Estadual Professor Luiz Roberto Pinheiro Alegretti) e a Fanfarra Ecoa (Espaço de Convivência e Aprendizado).

As crianças e adolescentes aprendem tudo sobre o universo das bandas marciais, ou seja, grupos que, além de tocar instrumentos de percussão e metais, incorporam movimentos corporais à apresentação, geralmente algum tipo de marcha, além da coreografia em certas músicas. Dentre as matérias aprendidas estão: iniciação musical, canto coral, expressão corporal, linguagem musical, solfejo, percepção e apreciação musical, música de câmara e, claro, instrumentos musicais, tais como trombone, trompete, tuba, trompa e percussão. Os alunos ainda ganham uniformes, lanches, instrumentos musicais e transporte.

Futuros músicos

Toda a parte teórica, aliada à prática, desperta no aluno a sensibilidade musical necessária para ser um grande músico, um dos objetivos do programa. Foi o caso do Gustavo Henrique Moraes de 18 anos, que nunca havia tido contato com música clássica, apenas com ritmos mais comuns na periferia. Agora, tem ouvido muito mais aguçado. “Hoje, quando assisto a algum filme, por exemplo, presto atenção também na trilha sonora, coisa que nunca fazia antes de entrar aqui e aprender a tocar trompete”, conta.

Mais do que isso, o Projeto Lyra também desperta o desenvolvimento mental, intelectual, a criatividade e a concentração por meio da música. E, o mais importante, a chance de um futuro melhor. O próprio Gustavo, atualmente, é um dos vestibulandos de Música na Unicamp, uma das melhores e mais concorridas universidades do país. Ele e mais três adolescentes do programa estudam juntos para entrar na faculdade. “Vários alunos da Alegretti foram premiados em Olimpíadas de Matemática, Ciências, entre outras. Em uma oportunidade, quando a diretora foi tirar foto dos premiados, percebeu que todos usavam a camiseta da Fanfarra. Isto não é coincidência! É cientificamente comprovado que a música aumenta o número de conexões cerebrais”, comenta Marcus Bonna.

Além da música

A garra para aprender instrumentos também reflete em outros objetivos. Sandro Camargo, 28 anos, por exemplo, foi um dos primeiros alunos da Lyra e, hoje, é engenheiro formado e Gerente de Produção na empresa onde trabalha. “Aqui eles te incentivam a não se conformar com a situação na qual você vive. Independente de seguir na carreira musical ou não, eles ensinam valores que podem formar médicos, enfermeiros, engenheiros…”, diz.

Para falar do papel social, Káthia Bonna cita Pitágoras: “Eduque o menino e não será preciso castigar os homens”. Por meio da música, a Lyra transforma diariamente as vidas dos jovens que vivem em situação de risco, tirando-os do ócio e oferecendo discernimento e oportunidade de um futuro melhor.

O jovem Tiago Lattanzi, por exemplo, um dos primeiros alunos do Projeto, hoje é o primeiro trompetista da Lyra Bragança e atual maestro da Fanfarra Alegretti. Ele é responsável por iniciar os alunos na música, tanto na Escola Alegretti quanto no Ecoa. Com isso, o Projeto Lyra Bragança está formando profissionais capacitados não só para tocarem em orquestras ou grupos musicais, mas também músicos de qualidade, empenhados na “formação” de outros colegas, multiplicando, assim, a essência do Projeto em outras escolas ou regiões.

Contato com ídolos e enriquecimento cultural

Aprender com profissionais reconhecidos no Brasil e no mundo é outro presente aos jovens bragantinos. Músicos renomados da Orquestra Filarmônica de Munique, Bamberg Symphony Orquestra, Berlin Filarmônica, Boston Symphony e outras já estiveram em Bragança para palestrar e lecionar aos alunos.

Expandindo as perspectivas de crianças e adolescentes, o Projeto Lyra Bragança contribui enriquecendo a cultura da cidade e com proveitos sociais. Mais do que música, ensinam cidadania e a viverem de maneira digna, ainda que as circunstâncias sejam difíceis. Os ensaios da Orquestra de Metais são realizados nas noites de quarta e no sábado durante todo o dia. Os da Fanfarra Alegretti são de segunda a sexta. Já os do ECOA são às quintas e sextas.

Anualmente, o custo do Projeto Lyra Bragança é elevado (acima de 200 mil reais) e tem a MB Cases como principal mantenedora. Conta com apoio da OSG e Imbramil, viabilizado pela Secretaria Estadual de Economia Criativa (ProAC), além da parceria de empresas como CMW Transportes, Organização Contábil Lima, Rotary Bragança Paulista Estância, Odontoclinic Bragança e T.E. Connectivity.

A lista de prêmios nestes dez anos é grande: heptacampeã da Cofaban (Concurso de Fanfarras e Bandas de Caieiras – 2011, 2012, 2014, 2015, 2016, 2017 e 2018), campeã da Confaframo (Concurso de Bandas e Fanfarras de Francisco Morato 2014), bicampeã Estadual em Nazaré Paulista (2015 e 2016) e campeã do Concurso de Bandas e Fanfarras de Guarujá (2019). “Mais do que ganhar campeonatos, o principal objetivo é integrar o jovem por meio da música e do desenvolvimento sociocultural”, comenta Babalu.