Rapper que une soul e afrobeat é o primeiro gay assumido da cena da cidade

Jeza de Pedra, Moldando a sua realidade com humor, crítica e coragem, o rapper une pontos de umbanda, afrobeat e soul com os sons do subúrbio carioca em uma mistura única e brasileiríssima. Com pouco mais de 3 anos de carreira, Jeza já dividiu palco com nomes como Rico Dalasam, Linn da Quebrada e Baco Exú do Blues. Agora, procura atingir um número maior de pessoas com uma série de músicas ao vivo.

“A minha necessidade de ficcionalizar a escassez da realidade e transformá-la em matéria onírica é o que me inspira a criar. A necessidade que eu tenho de manter a minha voz ecoando no tempo a despeito da finitude da vida. Mais especificamente, porque não tem nada na vida que eu me identifique mais do que fazer o que eu faço”, explica Jeza.

Unindo uma jornada que vai das comunidades cariocas até uma formação em Letras que passa pela conceituada Sorbonne, em Paris, a persona artística Jeza da Pedra veio da necessidade de Jonatas Rodrigues expressar uma voz diferente que nasceu dessa jornada única. Filho de mãe retirante nordestina e bisneto de escravos mineiros alforriados, Jeza nasceu e foi criado no Complexo da Pedreira, em Costa Barros. Foi no bairro da Zona Norte do Rio, que possui o segundo pior IDH da cidade, que passou boa parte da infância e adolescência entre igrejas neopentencostais, bailes funk e rodas de samba. Essa combinação que soa incomum é a base da criação musical de Jeza.

“Minha formação musical começou durante a infância, quando minha mãe ou avó me levavam à igreja ou escutavam louvores na vitrola de casa; no samba e pagode que meu pai ouvia nas jukebox dos botequins. A família do meu pai foi uma forte influência em termos de música de preto… Tim Maia, Jorge Ben, Alcione e todos os grandes sambistas e grupos de pagode de 80-90”, explica. “Até os 12 anos, eu ouvia de tudo, depois entrei numa de rock e fiquei meio besta: comecei a aprender violão lendo revista de cifras, queria ter banda, essas coisas. Com o decorrer do tempo, eu voltei a escutar um pouco de tudo novamente, dessa vez pirando mais em música brasileira. Desde então, a música se tornou algo fundamental inclusive para minha visão de mundo”.

Aos 14 anos, pouco depois de assumir a homossexualidade, participou do projeto “Adolescente no Mundo do Trabalho”, da ONG carmelitana São Martinho, que possibilitou o seu ingresso na Escola de Música Villa Lobos, onde estudou música brasileira e teoria musical. Nesses últimos 15 anos, Jeza tentou várias empreitadas musicais, do pagode ao white metal, mas sem achar sua voz. Foi ao adotar o rap e subverter o funk no que chama de “anarcofunk” que achou seu caminho.

Em junho desse ano, seu primeiro EP foi lançado. Intitulado “Pagofunk Iluminati”, o trabalho foi produzido por Juan Peçanha e mixado e masterizado por Cairê Rego, da banda Baleia, com quem Jeza trabalha em novos singles.

“A ideia de ordens secretas, simbologia e ocultismos, mensagens subliminares protagonizadas em arte/álbuns de ícones pop sempre me fascinaram. O meu Pagofunk é a franco-maçonaria da favela, é o livre pensamento periférico que regula a nova ordem mundial secretamente. O Pagofunk é a minha singela tentativa de instaurar uma Roma Negra através de gambiarras sonoras”, se diverte Jeza.

O show de lançamento do EP, no Coletivo Éden (Centro do Rio) contou com participação da orquestra Afrojazz e foi registrado em áudio e vídeo e agora começa a ser lançado para formar um EP ao vivo apresentando o trabalho da Jeza para um público novo. O projeto tem direção artística de Luana Moussallem, Tarek Naba’a e Eduardo Santana (AfroJazz) e tinha a assinatura musical de Eduardo Santana e Cairê Rego (Baleia).

A primeira faixa lançada é “Abafar Loló”, uma bem-humorada canção que Jeza descreve como uma mistura de “Realce”,  de Gilberto Gil, com canções que falam abertamente sobre drogas no cancioneiro nacional – como “Lança Perfume”, de Rita Lee, e “Há Tempos”, de Renato Russo. Na versão do EP, isso fica mais evidente ainda pelo uso de um sample de uma canção da cultuada banda Dorgas. Ao vivo, com o arranjo do Afrojazz, a música virou um afrobeat moderno com pitadas de R&B, com uso estético de autotunes e influência do afrofuturismo. Esse caldeirão de referências destaca a voz de Jeza na cena cultural carioca e pode antecipar boas novidades para 2018.

“O artista como bom receptador de frequências do futuro não pode dar mole pra preceitos morais pautados em um tradicionalismo patriarcalista judaico-cristão branco e tacanho. Ao meu ver, um dos papéis da arte é evidenciar e problematizar tudo aquilo que se refere à matéria vida e analisá-la à luz do seu próprio tempo, ela deve instigar o indivíduo a olhar ou se relacionar com algo ou alguém ou com ‘o estar no mundo’ de maneira diferente da cotidiana”, conta o artista, que também é tradutor, escritor e poeta com trabalhos publicados em zines e revistas de arte no Brasil.