Favela Vive sem dúvida traz a completa essência guerreira e ativista do Rap, e o Favela Vive 3 superou as expectativas e veio recheado de críticas à violência policial e social. Diversos episódios que nos causa revolta foram citados na música como “a cocaína que vem da fazenda dos senadores” com o qual DK finalizou de forma precisa seu verso e o “Marielle, presente!” gritado por Choice, fazendo alusão ao assassinato de Marielle Franco que hoje completa 150 dias sem solução. Como cantou Lord, esse episódio do Favela Vive foi escrito com traumas para ouvidos que tem alma. E um trauma que ainda faz o Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, chorar não foi esquecido: o assassinato pela polícia do estudante Marcus Vinicius da Silva de 14 anos.

Mais uma mãe revoltada, uma pergunta sem resposta
Como o policial não viu seu uniforme da escola?
Vinicius é atingido com a mochila nas costas
Como é que eu vou gritar que a favela vive agora? DK

Camisa do Marcus Vinicius aparece quando Negra Li entra.

‘Mãe, eu sei quem atirou em mim, eu vi quem atirou em mim. Foi o blindado, mãe. Ele não me viu com a roupa de escola?’, lúcido, baleado, camisa da escola manchada de sangue, foram essas as palavras que o garoto disse para mãe antes de morrer. Brincalhão, sempre sorrindo, estudioso, foi assim que todos os presentes naquele triste velório falaram a respeito de Marcus Vinicius. Um sorriso que foi apagado pelas mãos sangrentas do Estado. A culpa é desse Estado doente que está matando as nossas crianças com roupa de escola. Estão segurando mochila e caderno, não é arma, não é faca. Não estão roubando e nem se prostituindo, estão estudando!”, disse a trabalhadora doméstica Bruna Silva, mãe do garoto ao El País. Os garotos iam para a escola quando os tiros começaram, eles se abrigaram e esperaram, ao término, já sem qualquer troca de tiro, os garotos saíram do abrigo e seguiram em direção à escola quando o disparo de um blindado da polícia transpassou Marcus Vincius pelas costas, o garoto foi socorrido, mas foi a óbito no hospital.

Camisa da escola de Marcus Vinicius manchada de sangue. Foto: MAURO PIMENTEL AFP

O Rap como um instrumento de registro da realidade, como o cronista de uma dor que parece nunca acabar sempre carregou consigo a missão de deixar que injustiças não sejam esquecidas, por isso episódios como o Massacre do Carandiru, a Chacina da Candelária, Desastre de Mariana e muitos outros, sempre apareceram e continuam aparecendo nas letras até hoje. ADL, carrega consigo esse traço muito forte da Old Scholl, assim Lord também soltou:

Que isso?
Foi o tiro do bem dado que acertou Marcos Vinicius
Caído ali sem árbitro de vídeo
E vocês quer sustentar o hype
Compraram o melhor flow
Viram três Favela Vive e não viram o quanto ela chorou – Lord

O Laudo do Instituto Médico-Legal (IML) revelou que o menino foi baleado pelas costas. De acordo com peritos, a bala não ficou alojada no corpo do adolescente e saiu pela barriga. Na operação feita pela Polícia Civil, com o apoio do Exército, seis pessoas morreram, entre elas, Marcos Vinícius. A polícia informou que foi ao local para cumprir 23 mandados de prisão. Ninguém foi preso. Na operação, o helicóptero da Polícia Civil deu cobertura a quatro blindados que entraram na comunidade com policiais e militares.

Mãe de Marcus Vinicius mostra camisa que o filho usava ao ser morto.

O Rap Nacional foi levantado imerso em lágrimas maternas, em todas as suas versões Favela Vive não tem fugido da missão. Esse terceiro episódio veio recheado de mensagem mostrando que o Rap ainda luta. E que o sistema saiba que enquanto existir Rap a dor da periferia não será esquecida.

Marcus Vinicius presente! Marielle presente!

Referências:  El País G1

Se ainda não escutou a música dá o play aí: