Na solidão das madrugadas, a bordo de seu carro, Mano Brown rasga as ruas São Paulo para criar. “Os manos ficam em choque quando me veem encostar nas quebradas mais nervosas. Vou sozinho, para sentir a vida. Encosto, abro o vidro da nave, coloco as bases dos meus raps para tocar e viajo para criar os sons”, diz ele, que atualmente compõe para o novo disco do Racionais e para o seu primeiro álbum solo, a ser lançado em 2014. “Os manos falam: ‘Ô, Brown, maior susto. Nem dá para acreditar que é você, mano. Você é louco!’”, diz o rapper, sorrindo.

O disco solo é produzido há dois anos na Blue House, propriedade comprada e reformada por ele com o dinheiro recebido de uma multinacional fabricante de material esportivo para gravar uma versão de “Umbabarauma” ao lado de Jorge Ben Jor. O parceiro da vez é o cantor e compositor Lino Krizz, atual backing vocal do Racionais e conhecido também pelo “Rap da Abolição”, sucesso no fim dos anos 1980 da dupla Os Metralhas, que formava com o irmão gêmeo, DJ Dri. Quase sempre quando fazem música na Casa Azul, Brown e Lino têm a companhia dos jovens Big da Godoy, Boy Killa e Ylsão, alunos atentos no ofício do rap – Big e Boy hoje também são aliados presentes nos palcos com o Racionais.

O novo trabalho de Brown será uma obra na qual estará estampada “a visão da vida por parte de um mano que vive no limite e sempre está em busca do amor”, diz o rapper após escutarmos as inéditas “Mal de Amor”, “Foi Num Baile Black” (com participação de Hyldon e Phil Batista) e “Eu Te Proponho”. Também estão prontas “De Frente Para o Mar”, “Manhã de Carnaval”, “Amor Distante”, “Você e Eu Só” e “Cigana”.

O álbum de Brown, provisoriamente batizado de Boogie Naipe, é influenciado pelo curto período em que a disco funk dominou a cena musical, entre o fim dos anos 70 e o começo dos 80, ainda antes de o rap ganhar força nos Estados Unidos com a chegada arrasadora de Kurtis Blow. “Entre o funk e o nascimento do rap, teve a disco. Disco e rap têm a mesma origem no funk, mas a disco veio antes do rap e é isso o que tem me inspirado. Entre 77 e 80, a música virou de cabeça para baixo e funk, disco e rap eram quase que uma coisa só”, analisa o rapper. “O filme Os Embalos de Sábado à Noite também deu uma inspiração.”

O produtor e músico Blow Fly (Clarence Reid), tido por muitos como o primeiro rapper da história, é outro dos artistas norte-americanos desse tempo que também fizeram a mente de Brown e Lino nas criações para o álbum solo, assim como a banda de funk e soul Mtume. Muita guitarra, baixo, bem ao estilo dos sons do cantor Little Beaver, e tambores trilham o caminho para Brown tentar tocar corações com suas novas criações.

“Sempre falei para o coletivo, agora quero atingir o individual”, explica o rapper. “É como uma câmera que está em um jogo de futebol e vai lá na torcida para focalizar o rosto de apenas um torcedor”, ele fala, gesticulando como se fizesse o foco de uma câmera.

“Outro dia, um mano me falou que a [música] ‘Dance, Dance’ [de Brown e Augusto Bapt, com participação de Seu Jorge e de Don Pixote] é a música do casamento dele com a mina que ele conheceu em um baile black [na Vila Madalena, berço da boemia paulistana]. É isso o que quero agora. Nunca tinha sentido aquilo”, desabafa Brown, logo após eu lhe dizer que, em agosto, cinco ladrões roubaram um banco em Machadinho D’Oeste, interior de Rondônia, invadiram uma rádio e obrigaram a locutora a tocar o rap “Negro Drama”, do Racionais, durante a fuga da quadrilha. “Não me adianta de nada saber que os manos escutam meus raps para cometer crimes.”

Para seu solo, Brown conseguiu fazer uma música com o cantor, compositor e produtor norte-americano Leon Ware, parceiro de Marvin Gaye, ambos também referências musicais. “Entramos em contato pela internet, o Leon me mandou uma base e eu coloquei voz. Quando devolvi o som, o Leon disse ter gostado e que eu conquistaria várias gatas com aquela música, mas respondi que só quero uma mulher.”

Lino revela que, durante a produção do disco de Brown, a dupla ouviu muito Marvin Gaye, Leon Ware, Tim Maia, Carlos Dafé, Nelson Gonçalves, Nelson Ned, Altemar Dutra, Guilherme Arantes, Amado Batista, Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Jorge Ben e Djavan – além de Cassiano, com quem Brown conversou para colocá-lo no álbum (a participação ainda está em aberto).

Será surpreendente para os fãs ouvir Brown cantar “Eu lamento, amor/ Hoje eu peço paz/ Agora quem não quer sou seu/ Não, não quero mais/ Lá, laia, laia, laia/ Nada do que foi será/ mas tudo passa, tudo passará/ que jogo louco é o amor/ no submundo onde estou” com seu flow malandreado em “Mal de Amor”, e também nas outras faixas do disco solo.

Ao ser questionado sobre possíveis críticas dos fãs (que sempre exigem que ele toque raps do Racionais em seus shows solo) ao seu disco, Brown dispara: “O rap não pode ser limitante. O negro já tem tantas limitações no Brasil, tantas regras e o rap ainda te põe mais cerca. Não pode isso, não pode aquilo. O rap nasceu da liberdade e da expansão das ideias. É mais comovente se apoiar na fraqueza e divulgar isso, lavar roupa suja o tempo inteiro, expor as fragilidades o tempo todo, na feira livre. Teve um momento em que isso foi preciso. Hoje em dia é exposição, é Datena, que entra na casa das pessoas e mostra a panela suja, o cara morto embaixo da cama, é isso aí. Teria que ser isso e eu não quero ser isso”, diz Brown, que se apresenta preparado para aceitar as críticas sobre o estilo do seu primeiro álbum sem o Racionais. “Ninguém vai algemar o Pedro Paulo. Ninguém vai me fazer Mano Brown o tempo todo. Pode esquecer. Querer fazer a minha vida virar Racionais o tempo inteiro ninguém vai. Na minha vida mando eu. Eu quero que as pessoas sejam livres e eu também sou.”

VIA: Rollingstone