Se fosse perguntado qual o nome do maior rapper do país, certeza que dois nomes estariam na ponta da língua: Mano Brown e Sabotage. Outros apareceriam também, entretanto, se a pergunta fosse qual a maior rapper não haveria dúvidas, o nome Dina Di seria o primeiro. E, é aí que o problema começa e nem percebemos. Por que tem que ser especificado o gênero para que ela apareça entre os primeiros, se sem sombra de dúvidas ela ainda é um dos principais nomes da história do Rap brasileiro?

Sabotage morreu de forma trágica, mas estava no auge, começando a ter um grande retorno artístico. Já Mano Brown como sabemos está muito bem. Sabe como Dina Di estava quando a morte a alcançou? Veja esse trecho de uma entrevista feita pela, Revista Época, com ela menos de um ano antes de seu falecimento, não sei para vocês, mas para mim que sou grande admirador, é angustiante ler cada uma das linhas a seguir:

Ela é Dina Dee. Não tem nem RG. Toda vez que fez um, perdeu. Não tem endereço nem paradeiro. O celular roubaram quando visitou o marido na cadeia. Não tem emprego, nem dinheiro, nem religião. (…) Foi achada vivendo de favor, dormindo no chão de um único cômodo dividido com mais dois numa quebrada mais do que pesada da Zona Leste de São Paulo. Tinha R$ 5 no bolso e a TV ligada nas notícias do mundo-cão para saber como andava o clima nas prisões. Preparava uns CDs para despachar rumo a uma penitenciária feminina onde eles ‘vão rodar, de cela em cela, de cadeia em cadeia’. (…) No fim de semana, Dina Dee encontra o grupo de rap RZO para fazer até três shows por noite sem ter a certeza de voltar com algum. ‘Tô vivendo de sonho, de subir no palco. Pegar trem, ônibus, perua e cantar para verem que eu não morri. Sobrevivi a tudo e estou ali’, diz. ‘E depois descer e não ter nem dinheiro para comer um cachorro-quente.‘ (A Voz feminina dos Becos, Revista Época.2009)

Hoje é aclamada como A Rainha do Rap, e é um título merecido, mas infelizmente póstumo. Esse não é um post para falar da Dina Di, mas é impossível tratar de inclusão feminina no Hip Hop sem falar dela. Aliás, para não ficar muito grande o texto focarei no Rap, mas generalizem a vontade para todo o Movimento Hip Hop.

Quando em 2009 escutei MV Bill cantando:

É muito confuso é muito sinistro
Quem causa a miséria é quem jura ter amor a cristo
E com seu ar superior não tem respeito pelo gay
Pelo idoso pelo pobre e pelo preto (MV Bill, Só mais um Maluco)

Fiquei de cara, por que até então poucos dos principais nomes tinham ousado falar em favor dos gays. O tempo mudou, segundo muitos dizem o Rap evoluiu, mas no quesito igualdade mudou? Pouco. Sim, hoje temos Rico Dalasam destruindo nos rap’s e ainda explicando para um hater como é o prazer na próstata (veja aqui a entrevista ao ODB), temos Carol Conka e Flora Matos arrastando multidões, Karol (ex Realidade Cruel) sempre impondo respeito, Negra Li encantando com sua voz, mas isso é mais bravura desses artistas e, claro de vários outros, do que uma mudança no Rap. Grande parte dos clipes e músicas ainda continuam com a objetificação feminina. Pouca coisa mudou e o que mudou foi graças à luta de todos os envolvidos.

Costumo dizer que hoje o mainstream do Rap Nacional vive uma festa, mas as minorias do Rap continuam vivendo uma guerra.

É nesse contexto que a página “Por um Hip Hop Igualitário” vem lutando e incomodando. Conheci a pouco tempo, mas o que vi foi mais que o suficiente para me levar à reflexão, a olhar para essa luta. Sem medo de botar o dedo na ferida e, principalmente de apontar os inimigos, as postagens denunciam o preconceito que existe dentro do próprio Rap.

Em um dos artigos fala do preconceito contido no Rap Gospel, por exemplo. É claro, há muitas opiniões contrárias que quando respeitosas levam a bons debates, porém há também muitos argumentos “brilhantes” como os costumeiros “mimimi”, mas nesse momento vale uma frase de Dina Di (sim ela novamente):

“Nós é ‘nóis’. ‘Eu nunca paguei pau pra homem’, (…) ‘Do nosso mundo só nóis conhece. Cada mulher sabe o medo que ela tem. O homem pode ver, mas não pode sentir. Por isso, eu tenho o maior respeito pelos Racionais, mas, vai me desculpar, chamar uma mulher de vadia é muito difícil de aceitar. O Mano Brown fala da mãe nas letras, mas nunca da mulher dele. Qual é a resposta? Resistir. Eu sou Dina Dee. E meu bagulho tá no sangue.’

Eu me solidarizo com a luta, mas nunca saberei realmente o que sentem. Só elas e eles que passam por isso sabem. Portanto, só de fomentar o debate essa página e todas as outras que se propõem a tal merecem todo o apoio.

Como diz a foto de capa da página “Não poetize o machismo”.

Acesse e confira: https://www.facebook.com/HipHopLivre/?fref=ts

Reportagem da Revista Época sobre Dina Di: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDR51005-6011,00.html