Era início dos anos 2000, tínhamos sobrevivido ao bug do milênio, o mundo não tinha acabado e o universo do rap se abria para mim. Naquele ano, ainda adolescente começava a curtir meus primeiros lazeres na Cei. Gog gritava “É o Terror é o Terror“, Queima de Arquivo dizia que “Cadeado blindado não era o esquema“, Sob Suspeita argamassava os “Alicerces da Vida” enquanto Realidade Atual questionava “Ei irmão aonde está a paz que eu tanto sonhei?“. Ameaça Urbana fazia “Proteção a Própria Vida“, Circuito Negro a “Retrospectiva do Crime” e Caçadores de Harmonia “Declarava que era a hora de pedir perdão“.

Por que tantas lembranças? Por que nesse fim de semana tudo se repetiu. Sábado aconteceu a segunda edição do Lazer das Quebradas e, se a primeira edição nos apresentou um evento que pedíamos há tempos, a segunda o consolidou.

Foi impossível começar esse texto sem recordações. Por que naquela época descobri que Ceilândia não é uma cidade comum; é viva, suas vielas e becos (que quase não existem mais), seus quadradões e pracinhas, suas feiras, “Qn’s” e bairros e quadras novas, tudo isso é um sistema venoso, bombeando vida a um coração pulsante, que bate em bmp, rimas e graves.

Mas, aquela curtição que tínhamos quase diariamente na quebrada foi diminuindo, diminuindo… e felizmente não acabou. O evento pode ser resumido em três expressões repetidas durante toda a festa, a primeira é: Ceilândia Resiste!

Apesar dos lazeres terem diminuído consideravelmente, heróis continuaram na luta, sejam nos bailes da Smurphies, no Elemento em Movimento, nas praças da Bíblia e do Cidadão, ou nos carros parados nos estacionamentos soltando som, Ceilândia resistiu e resiste! E agora com mais uma grande força: O Lazer das Quebradas.

A segunda expressão repetida por todos durante o evento e que preciso destacar é: A Quebrada precisa disso!

Sim, precisamos!

A quebrada precisa da subversão poética do Sarau-VA, dos punchline’s dos MC’s da Batalha do Cantador, dos movimentos do Tekamul, dos traços do Vanz, dos scratches da Dj Janna, do Dj Raffa e o Fúria Funk, do Dj Kazuza e os passinhos de charme da galera, da Dj Mallu que embalou até dança do ventre e, do miliano no Rap Dj Ocimar. A quebrada precisa disso por que não é apenas entretenimento, é arte, é resgatador.

A terceira expressão repetida constantemente foi: O Rap Resiste!

A força do Rap, do Rap de mensagem, de protesto, das rimas positivas, do Rap da conscientização ficaram por contas dos grupos que, com Nenzin fazendo as honras das casa, subiram e representaram muito bem isso.

O começo já foi com tudo, Quadrilha Intelectual ganhou o tablado com sua mensagem pesada: “Não somos militância, por que quem faz militância é playboy, nós somos resistência!”. E em cada letra contundente foram colocando suas peças no tabuleiro até o xeque-mate no sistema.

Em seguida Dom SecretoTrimáfia subiram. O que foi aquilo? O público foi ao delírio! As letras recheadas de pura realidade e a animação da galera sob o palco contagiaram a todos.

Na sequência, Strikys levou sua mensagem para nós “cromossomos criados nos becos, quebradas e favelas…” e nos fez curtir um som de batidas pesadas e letras conscientes.

O último grupo a cantar foi Sobreviventes de Rua e a espera valeu a pena. Mandaram seus melhores sons e me deixaram com a principal imagem do evento: A expressão feliz deles sob o pequeno palco, sempre se abraçando ao trocar os microfones de mãos, foi a simples demonstração do que é um Rap feito por amor, por crença em seus objetivos. Sai do evento com aquela imagem. Novamente: O Rap Resiste!

E da mesma forma que lá no final dos anos 90 pude ouvir as letras que me salvaram, ecoadas nos lazeres que dominavam nossos finais de semana, no sábado dia 21/05 vi a cena se repetir.  Aqueles adolescentes que lá estavam, carentes de eventos, puderam escutar a mensagem. E nós mais velhos também ouvimos. relembramos e curtimos.

Um mano lá me abordou e perguntou: Qual Rap para você define a Ceilândia? A pergunta quase travou meu cérebro. Não consegui uma resposta, afinal sons lendários foram produzidos aqui. Só posso dizer: Ceilândia não tem apenas o Rap como música. Ceilândia é o Rap!

Esse foi o Lazer das Quebradas, esse foi O Rolê. Quem disse que a quebrada estava parada?

“No show de Rap os caras vão estão por lá, curtindo o batidão da equipe da favela, com microfone um grupo manda a ideia certa…” (Liberdade Condicional Rap – Equipe da Favela)

Resumo JDR em Vídeo: