Após a ótima entrevista do Dj Jamaika ao canal Minha Brasília, onde ele conta um pouco da sua história no Rap, acabei tendo a ideia de iniciar essa coluna. O objetivo é nítido: Contar um pouco da história do Rap do DF.

No programa, Jamaika cita uma situação onde ele juntamente com outros rappers tinham dado uma entrevista, onde a repórter perguntou sobre a ação das gangues que na época “dominavam” a capital. Por ser da Ceilândia e, conviver diariamente com isso ele acabou falando sobre o assunto, entretanto, a jornalista aleivosamente publicou uma manchete na capa do Correio Braziliense classificando-os como membros de gangues, o que gerou diversos problemas na época. (Confira a entrevista aqui)

Sai na captura dessa reportagem, pois é um belo registro da história do próprio Rap Nacional, uma vez que, estamos falando de figuras emblemáticas do movimento. A foto de capa não achei, mas graças ao @mitoseletras que faz um registro histórico do Contexto de Rua do Distrito Federal, acabei encontrando uma parte da reportagem que mostra as gangues de Brasília nos inicio dos anos 90, não posso afirmar com precisão a data, mas tudo indica que é de 1993. Nela Câmbio Negro aparece entre “as principais gangues” ao lado do DF Zulu e Breakers Reforços, em uma clara amostra do desconhecimento do movimento Hip-Hop pelo jornal na época. Eis a reportagem:

História do Rap do DF

Contexto – História do Rap do DF

Para se ter uma ideia do que acontecia naqueles tempos em Brasília.  No ano de 1993, ocorreu a morte do jovem Marco Antônio Velasco por uma das gangues que disputavam território no Plano Piloto, chamada Falange Satânica. O caso chamou a atenção da sociedade para a violência das gangues por envolver filhos da alta classe de Brasília, pois até então acreditava-se que esse era um problema unicamente das Cidades Satélites. Assim a imprensa criou um estereótipo de que qualquer grupo de jovens era uma gangue e o hip-hop tornou-se seu principal alvo.

De fato, alguns grupos até perigosos existiam na época, como é o caso dos Nasa, Balão Mágico, Adidas e etc. Já grande parte das galeras de pixadores traziam (e ainda trazem) em seus nomes elementos do Hip-Hop como:  Grafiteiros do Distrito Federal (GDF), Grafiteiros Sanguinários Noturnos (GSN), Grafiteiros Demoníacos do Além (GDA), Anjos Grafiteiros Escaladores (AGE), Grafiteiros Sem Lei (GSL), Hip-Hop Grafiteiros de Brasília (HGB) e etc. Eram gangues formadas em sua maioria por jovens da periferia de Brasília, jovens que amavam a cultura Hip-Hop e a própria menção dos elementos do movimento em seus nomes eram de certa forma uma homenagem. Sem falar que também estávamos no início do movimento, o grafite não era separado do pixo como hoje em dia.

Tudo isso, somado à desonestidade midiática (pleonasmo proposital) acabou criando essa atmosfera que culminou na citada reportagem. Mas, os referidos nas páginas do Correio Braziliense, Câmbio Negro, DF Zulu e Reforços Breakers além de não serem gangues eram/são parte do movimento que lutava para salvar os jovens justamente dessa violência.

Conheça um pouco dos personagens envolvidos:

download (4)Câmbio Negro

O Câmbio Negro surgiu em 1990, em Ceilândia. A primeira formação tinha X (Alexandre T. Silva) e DJ Jamaika (Jefferson Alves) nos vocais além de DJ Chocolaty nos toca-discos. O primeiro álbum, intitulado Sub-Raça, foi lançado em julho de 1993 pela gravadora independente Discovery. Pelo mesmo selo, em 1996 o grupo lançou seu segundo disco: Diário de um Feto, vendendo duas mil cópias nos primeiros quinze dias. No mesmo ano, concorreu ao Video Music Brasil, na categoria Melhor Grupo de Rap, fato que se repetiria no ano seguinte.[Somente na edição de 1999 é que o grupo conquistou o prêmio, além de concorrer na categoria de Melhor Direção, com a música “Círculo Vicioso”.  Após a saída do vocalista X no final do ano 2000, visando seguir na carreira solo, o Câmbio Negro encerrou suas atividades. (Wikipedia)

DF Zulu

hqdefault (3)DF Zulu é uma expressão artística de cunho social que tem poder de transformar opiniões, vândalos em artistas , destruição em consciência, depreciação em auto-estima, violência em paz. É bem mais que uma turma de jovens que dançam break ou que fazem graffiti, é a união de ideias de uma cultura que se difunde nas ruas, que tem consciência das necessidades e dificuldades do povo da periferia, que usa a arte e criatividade para conscientizar e valorizar o indivíduo que a sociedade ignora.

O grupo DF Zulu surgiu em 19889, em Ceilândia, com intenção de irradiar os valores de afirmação da identidade negra, consciência ia social, paza ,amizade, solidariedade e cidadania, utilizando elementos da cultura hip-hop. Foi criado por um grupo de amigos que se encontraram na necessidade de fazer algo pela comunidade de onde moravam, já que a violência crescia a cada vez mais e os jovens que não tinham opções para diversão acabavam se envolvendo em práticas ilícitas e todo tipo de violência.

Já o Reforços Breakers foi um grupo da M.Norte que também entrava nas rodas de dança na época. Não tenho informação se ainda estão na ativa.

Esse foi o primeiro artigo dessa série. Espero poder trazer muita coisa acerca dessa página da nossa história para que com a difusão da informação, reportagens como essa que demonstra profundo desconhecimento e falta de honestidade não voltem a aparecer.

Referências:

Foto do Mitos e Letras
Tavares, Breitner (2008). “Geração hip-hop e a construção do imaginário na periferia do Distrito Federal
www.facebook.com/DFZULU