No último sábado estivemos no evento Lazer das Quebradas realizado na Casa do Cantador de Ceilândia (clique aqui e confira o review da festa). Foi um evento muito bom que deixou a galera pedindo mais, mas que acabou sendo ofuscado por um problema: a ação de pichadores no local. O problema é que a Casa do Cantador é tombada como Patrimônio Cultural o que colocou em xeque a realização de futuros eventos.

A organização lançou a hashtag #RespeitaACeilandia em repúdio ao ocorrido, no entanto, no post houve uma contestação que devemos levar em conta, vou deixar o link aqui do debate.

A questão é: Existe limite para o Pixo? (sim com x).

Não tenho por intenção fazer apologia ou atacar, mas unicamente propor um debate maduro.

A pichação geralmente é tratada em todos os meios apenas do ponto de vista criminal. Mas, ela é uma intervenção artística? Vamos ao ponto:

  • É arte transgressora para uns. Tanto que os pichadores foram convidados a participarem oficialmente da Bienal de São Paulo de 2010 e da Bienal de Berlim de 2012.
  • Para outros é só sujeira.
  • Muitos dos pichadores rejeitam o rótulo de arte. Assumem-se unicamente como vândalos.
  • É crime.
  • Se deixar de ser crime deixa de ser Pixo.

Compreenderam a relação?

06

Tumulos é capa de Jornal

Há algo interessante, quando o coletivo de pichadores Tumulos ataca residências de autoridades ou de pessoas polêmicas com mensagens de protesto, não vemos um repúdio da sociedade, pelo contrário, encontramos até mensagens de apoio. O ódio ao pichador aparece quando ele deixa sua marca em qualquer lugar da cidade, nos muros das pessoas. Assim podemos sempre notar que uma frase pichada no Palácio do Planalto atrai reações diferentes de uma pichação na W3 Sul, por exemplo.

É o desrespeito à propriedade que faz do pichador um ser odiado.

Pichação no muro de Gilberto Kassab

Pichação no muro de Gilberto Kassab

No entanto, o que as pessoas não compreendem é que para o pichador a marca que ele deixa em seu muro é sim um ataque direto ao sistema. Isso por que o pichador, mesmo os que não picham por ideologias, rejeita em certo nível a noção de propriedade privada. Por isso uns não perdoam nem os muros de suas próprias casas. É uma noção quase rousseauniana. Assim, toda propriedade faz parte do sistema.

A propriedade privada introduz a desigualdade entre os homens, a diferença entre o rico e o pobre, o poderoso e o fraco, o senhor e o escravo, até a predominância do mais forte. O homem é corrompido pelo poder e esmagado pela violência. (Jean-Jacques Rousseau)

Em SP a pichação tem se tornado cada vez mais um instrumento de protesto coletivo, é uma característica de quando o movimento amadurece. Como informa Cripta Djan, pichador paulista e um dos maiores defensores do movimento ao Catraca Livre:

Essa geração é mais madura, tem mais conhecimento, tem internet para se politizar. Ainda é pouco, mas o caminho é esse. Já passamos da fase da violência e da fase da disputa de espaço. Agora é um momento novo, do pixador politizado. Esse é o futuro do pixo. Se for para sair na rua, é para fazer alguma ação coletiva, que vai ter repercussão. Mas a polícia tá com um procedimento cada vez mais violento com a gente. Fonte

No Distrito Federal a pichação ainda é instrumento de demarcação de território das gangues e fama do pichador, no entanto, isso tem mudado aos poucos. Iniciativas como a R.U.P (Revolução União Pichação) e o Mitos e Letras, têm conseguido unir gangues que derramaram muito sangue entre si com o objetivo de tornar a pichação candanga em um movimento unido pelos jets e muros.

Quando isso ocorre, quando já não há mais gangue rival para bater de frente, o enfrentamento passa a ser contra o sistema.

fonte @mitoseletras

Membros de duas gangues do DF historicamente inimigas, GDF e GSL picharam juntos recentemente.

Eu pixo por que eu sou apaixonado pela Subversão, libertinagem e amor, muito amor à pichação. No mundo da pichação eu consigo me sentir livre, sem leis, regras, é tipo a única regra é o respeito. É um mundo que eu gosto de viver. No mundo da pixaçao você não se preocupa com nada, você apenas quer se satisfazer. (Entrevista do Roleta membro dos Grafiteiros do Distrito Federal – GDF em 2012 no falecido Orkut)

Mas, até aqui não respondemos a pergunta: Há limite para o pixo?

Estive durante um tempo dentro do movimento, vi pichadores impondo limites a si mesmos por vários motivos, por exemplo, alguns não pichavam igrejas por motivos religiosos ou supersticiosos, outros evitavam muros de bandidos perigosos e etc. Mas, nunca existiu um limite da pichação em si. A regra é: Não há regras! Tem tinta e tem espaço o pixo acontece.

Então a resposta é não.

Entretanto, há entre todos aqueles que lutam contra o sistema independente da forma, a consciência que sua luta não pode prejudicar a quebrada. Por isso o Guindar’t 121 já cantava:

Um bom malandro
Respeita a vida como for
Um bom malandro
Respeita a vida pelo amor
Olha o bom malandro
Eis um bom malandro
Seja um bom malandro (Um Bom Malandro – Guintar’t 121)

Assim a pixação ocorrida na Casa do Cantador está em acordo com a ideia do pixo, mas foge da consciência de lutar pela quebrada, afinal se vai prejudicar sua área a sua intervenção passa a ser parte do jogo do sistema e não o contrário.

Claro, tudo isso que falei serve de nada se você é da visão que é crime e não merece sequer ser debatido.

Mas, na visão de quem acompanha as artes marginais e transgressoras, não há limite para o pixo, mas é necessário ter consciência com a própria quebra.

É fácil para quem está de fora atacar o pichador, mas só quem esteve dentro do movimento consegue entendê-lo de verdade. Vê que é um grito de alguém que é invisível, seja para a sociedade, para a família ou até para si mesmo.

O livro Uma Vida e Dois Mundos do ex-pichador Carlos Astro e o documentário Pixo são perfeitos para levar a uma compreensão do tema. Que é complexo.

Em suma: #RespeitaACeilândia em todos os seus aspectos!