Em “Sem Crise”, música que abre seu sétimo álbum de estúdio, Gabriel O Pensador proclama que “andou afastado das raízes, mas está voltando que nem um bumerangue”.

As raízes as quais o rapper se refere é a própria música. Gabriel ficou sete anos sem gravar em razão das inúmeras palestras que deu ao redor do Brasil apresentando seus dois livros — “Diário Noturno” e “Um Garoto chamado Rorbeto” — além de cuidar dos projetos sociais “Pensador Futebol” e “Dream Football”, que mistura futebol e educação.

“Não tinha muito compromisso com prazos e fui recebendo muitos convites para palestras. Os shows foram diminuindo, aí veio os projetos de futebol que se tornaram um compromisso e eu não tinha como dar um tempo. Entrei numa roda viva e os amigos começaram a cobrar minha volta ao estúdio. Para os meus amigos esse disco tem um espírito de volta, mas para mim não é muito assim. Nunca me senti afastado da música, não foi por falta de carinho que fiquei tanto tempo sem gravar”, contou Gabriel em entrevista ao UOL.

“Sem Crise”, título do álbum, é um passeio do músico dentro de um universo muito particular. O single, “Surfista Solitário”, em parceria com Jorge Ben Jor, exalta a infância de Gabriel junto ao mar. “Quando entro no mar em qualquer lugar que eu esteja me conecto com o Gabriel adolescente que aprendeu muito com o surf o que é a amizade e solidariedade”, disse o cantor deixando escapar certo saudosismo aos 38 anos.

“Linhas Tortas”, segundo ele, é mais reflexiva e partiu da necessidade de se posicionar sobre a polêmica envolvendo seu cachê para ser patrono da Feira do Livro de Bento Gonçalves. “Sinto que aquele episódio foi uma crítica muito mais a prefeitura do que a mim e um certo ciúme de outros autores que ganhariam menos. O cachê seria para comprar dois mil exemplares de livros meus, além de pagar o show que eu faria. Abri mão de tudo e quis fazer a música correndo. A letra me levou a uma introspecção, a um Gabriel tímido lá do começo”, relembrou ele que canta “Na feira eu vendo livro, no show eu vendo ingresso / Na loja eu vendo disco, já vendi mais de um milhão / Se isso for um crime, quero ir logo pra prisão”.

Álbum conta com participações de Carlinhos Brown e Nando Reis

Outra característica de “Sem Crise” é a mistura de ritmos pensada por Gabriel para se somar ao hip hop. Dentre os destaques está a sanfona de Marquinhos Faria em “Bate na Palma da Mão”, dos versos “É hip hop/ Forró / Baião”.

“Desde sempre eu soube que meu rap era destinado para um público misturado. Cantei com músicos como Caetano Veloso, Djavan, Martinho da Vila, Fundo de Quintal”, enumerou Gabriel que em “Sem Crise” reuniu Carlinhos Brown, Rogério Flausino, Nando Reis e o Cone Crew Diretoria.

“O Nando [Reis] é um cara que não tenho intimidade, mas na minha cabeça sempre fui muito íntimo dele por causa das canções, o Brown era uma cara que eu admirava e os outros já eram amigos”, explicou Gabriel sobre a escolha.

Em “Deixa Quieto” surge como música incidental “Carinhoso”, na voz de Marisa Monte. “Cantava ‘Carinhoso’ para o meu filho quando ele começou a andar, é uma música que me emociona”, contou.

“O rap estimula o cara a ter opinião própria”, diz Gabriel O Pensador

Com o álbum “Quebra-Cabeça”, de 1997, Gabriel O Pensador vendeu mais de um milhão de álbuns e se tornou um sucesso nacional. Indagado se foi responsável pela popularização do ritmo, o músico garantiu que entende sua importância.

“Sei que depois que vendi tantos discos o sucesso ajudou as gravadoras e os donos das rádios a darem espaço para o rap. Digo isso sem prepotência. Percebo essa importância quando ouço artistas falarem que meu álbum foi o primeiro CD de rap que eles ouviram. Em Angola e Portugal o meu sucesso abriu espaço para o rap feito em português”, opinou Gabriel.

sobre sua importância no rap

Sobre a importância do rap para a juventude, Gabriel afirmou que o ritmo rap é “estimulante”.

“O rap traz coragem para um garoto adolescente, estimula o cara a ter opinão própria, a querer se expressar, de estar consciente, de se informar, de evoluir intelectualmente”, disse ele que em seus shows tem aberto espaço para novos talentos por meio de uma batalha de rap realizada entes de cada apresentação.

“Quem apresenta é o Beleza, um rapper campeão de várias batalhas. Também tenho levado grafiteiros ao palco”, contou Gabriel que nesta final de semana se apresenta no Rio de Janeiro. Para 2013, além da turnê, ele se prepara para lançar mais um livro, dessa vez em parceria com a escritor Laura Malin, ainda sem título.

VIA: UOL