Sempre em datas especiais procuramos montar alguma playlist com músicas que tratam ou homenageiam o tema. Foi assim no Dia dos Namorados, Dia das Mães e etc. Com a chegada do Dia dos Pais resolvemos preparar algumas músicas em homenagem a eles; iniciamos uma pesquisa e quase não encontramos nada. Aliás até há Rap’s sobre o tema, como “Te Trouxe Rap Pai” do Xamã, “Quando o pai se vai” do poeta GOG ou Japão Viela 17 em homenagem ao dias dos pais, mas a grande maioria das músicas que citam o lado paterno é com dor, abandono e muitas vezes ódio. A falta de músicas no Rap homenageando os pais evidencia um problema crônico da sociedade e principalmente das periferias: o abandono paterno.

Vivemos uma epidemia social de abandono paterno”, afirmou o promotor de justiça de São Paulo, Maximiliano Roberto Ernesto, criador do projeto de reconhecimento paterno. Uma pesquisa do IBGE em 2015 revelou que em 10 anos o Brasil ganhou 1 milhão de famílias formadas por mães solteiras e que a chance de ser mãe solteira na periferia é de 3,5% maior.

Normal no meu convívio é crescer sem pai, óh que triste;
Nóiz no rap preza a família, mas a nossa de sangue não existe. (Sant – O que separa os homens dos meninos)

O Rap, através de seu papel de registro sociológico, vem falando sobre isso há bastante tempo. Por isso não me espantou a pouca quantidade de músicas homenageando os pais da mesma forma que as há para as mães. O fenótipo da grande maioria é infelizmente o do Negro Drama: “uma negra e uma criança nos braços”.

O bastardo, mais um filho pardo, sem pai. (Racionais – Negro Drama)

O Brasil tem 5 milhões de crianças sem o nome do pai no registro. Isso sem contabilizar aqueles que assumiram na certidão, mas que não desempenham qualquer papel paterno, ou os que morreram antes que os filhos crescessem, como é o caso relatado pelo rapper Emicida em suas músicas.

O fato que o aborto materno é punido como crime, mas o paterno só gera penalidade quando o homem deixa de pagar a pensão, ou seja, caso ele mantenha o pagamento daquele valor irrisório diante das necessidades materiais e emocionais de uma criança, ele pode simplesmente não participar da vida do filho. E as consequências estão visíveis na sociedade e presentes nas letras do Rap:

E ai pai lembra de mim recorda meu rosto,
sou aquele bebê mal criado que por você era aborto,
cresci, consegui sobreviver, mas tô aqui,
vivendo a lei da rua sem ver minha mãe sorrir,
sorrir pra que né pai,
o mundo é tão cruel papai noel trouxe foi droga
eu comecei cheirar uns papel,
na rua deu pra garantir um cobertor no frio,
um agasalho do corinthians pago pau quem viu… (A Família – Na rua até as dez)

Letras como Crisântemo do Emicida evidenciam como a lacuna deixada por uma pai pode afetar a vida de uma criança e criar problemas que afetarão por toda a vida. O Rap tem falado sobre isso há muito tempo, mas ao ver esse ciclo repetir-se sempre, me pergunto: será que temos escutado?

Referências:
hypeness: Todos nós 5 milhões’: documentário pretende abordar o abandono paterno no Brasil
Universa: Vivemos uma epidemia social de abandono paterno”, diz promotor
G1: Em 10 anos, Brasil ganha mais de 1 milhão de famílias formadas por mães solteiras
Estadão: Chance de ser mãe solteira na periferia é até 3,5 vezes maior